O BLOG

Uso este espaço para postar alguns temas que gosto: arquitetura, construção, sistemas construtivos, paisagismo, patrimônio cultural, arte, museus/museologia, design, escultura, finanças, fotografia, música, e outras coisinhas..

Este blog é fruto das minhas leituras, edito o que mais gostei...para nossa inspiração!

Obrigada pela visita e volte sempre.

Seja Bem-Vindo (a) !!!

Este blog foi elaborado pela arquiteta Marjorie Karoline © 2008-2016

sábado, 18 de setembro de 2010

Planos Diretores Físicos Hospitalares

Estudo de Conceitos e Métodos de Planos Diretores Físicos Hospitalares
RESUMO

A maior competitividade do mercado de assistência à saúde, o avanço das ciências médicas e as constantes necessidades de incorporação de novas tecnologias e de aprimoramento de instalações físicas têm levado hospitais a buscarem meios de organizar e direcionar suas ações e investimentos.

Contudo, em grande parte dessas estruturas encontram-se situações de obsolescência, improvisação e dificuldade de atualização espacial, causadas, entre outros motivos, pela falta de planejamento da área física. Inserido nesse contexto, o artigo apresenta o plano diretor físico como importante instrumento de direcionamento de ações, com o objetivo de reunir conceitos e informações sobre a elaboração dos mesmos e compreender a atuação do arquiteto nesse processo.

Para tanto, foram entrevistados três arquitetos brasileiros para se estudar conceitos e métodos utilizados na realização de planos diretores hospitalares. Também foi analisado o currículo de cada um dos entrevistados de modo a caracterizar parte da produção dos planos no país. Assim, o artigo faz uma breve reflexão sobre a elaboração de planos diretores para hospitais, parte integrante da dissertação de mestrado na qual o tema é abordado com mais profundidade.

Palavras-chave: arquitetura hospitalar, planejamento hospitalar, plano diretor.

ABSTRACT

The increasing healthcare market competitiveness, the evolution in medical sciences, the constant necessities of new technology incorporation and of improvement in infrastructure have lead hospitals to search for ways of organizing and guiding their actions and investments. However, situations of obsolescence, improvisations and difficulties in updates are found in most of these buildings, caused, among other things, by the lack of area planning. In this context, the paper presents master plans as an important instrument of guiding the actions, with the objective of gathering information about their elaboration and of understandinf the role of the architect in this process. For that, three Brazilian architects were interviewed to enable the study of concepts and methods used during the elaboration of hospital master plans. It was also analyzed the résumé of each one in order to characterize part of the production of plans in the country. Thus, the paper reflects briefly upon the importance of hospital master planning, which is part of the dissertation where the subject is studied in deep.
Keywords: healthcare design, hospital planning, hospital master plan.

INTRODUÇÃO

Alice – Poderia me dizer, por favor, qual é o caminho para sair daqui?

Gato – Isso depende muito do lugar para onde você quer ir.

Alice – Não me importa muito onde.

Gato – Nesse caso, não importa por qual caminho você vá. (Tancredi, Barrios, Ferreira, 1998, preâmbulo)

O diálogo entre Alice e o Gato do livro ‘Alice no País das Maravilhas’ traduz claramente a essência e a importância do planejamento, pois mostra a grande diferença que há entre o deixar-se levar ao sabor do acaso e o determinar aonde se quer chegar.

Porém, a situação atual brasileira demonstra que até metade do século XX, salvo raras exceções, hospitais foram construídos sem qualquer planejamento, dificultando sua atualização pela falta de condições favoráveis, atingindo a obsolescência física e funcional em muitos casos (MAUDONNET, 1988). Resultado de um crescimento empírico e da pouca utilização de instrumentos de planejamento (KARMAN, 2002), esse cenário agrava-se ainda mais devido a uma série de fatores, tais como: falta de recursos, aumento de demanda, acirrada concorrência de mercado, vertiginosa evolução das ciências médicas e das tecnologias, dentre outros, que contribuem no sentido de intensificar cada vez mais uma característica intrínseca aos hospitais que é sua complexidade programática e, conseqüentemente, projetual.

Para reverter tal situação, o plano diretor apresenta-se como importante ferramenta de organização espacial e de direcionamento de ações a serem tomadas pelas instituições hospitalares, na busca de seu reposicionamento como edificações modernas, flexíveis e aptas a enfrentar esse cenário, ou seja, ele expressa o “compromisso com o futuro” (GOMEZ, 2002). Produto de um processo de planejamento, o plano diretor pode ser abordado sob diferentes perspectivas, sobretudo em estabelecimentos multidisciplinares como os hospitais, sendo no presente trabalho visto sob seu aspecto espacial, ou seja, a do plano diretor físico.

Vários autores (BROSS, 2006; NAGASAWA, 2007; SALGADO, 2005; SILVA, 2006; SILVA, 1999; WALKER, SHEN, 2002) demonstram a importância de estudos direcionado às primeiras etapas do processo de projeto, onde o plano diretor pode ser considerado uma dessas etapas ou não, de acordo com o entendimento de cada um. De uma forma ou de outra, o plano ajuda a garantir a qualidade do processo através da transmissão de informações necessárias às etapas seguintes de projeto e construção, a facilitar o entendimento da complexidade do objeto e a permitir flexibilidade e agilidade durante a execução das obras. A geração desse conhecimento contribui para aumentar as chances de sucesso e reduzir os problemas nos edifícios hospitalares, uma vez que o plano direciona os arranjos físicos a serem projetados.

Assim, o objetivo principal da pesquisa é reunir conceitos e informações sobre a elaboração de planos diretores físicos hospitalares, ao mesmo tempo em que busca compreender a atuação do arquiteto nesse processo e caracterizar parte da produção dos mesmos no país. Isto porque o papel do arquiteto vai além do projeto arquitetônico, pois é necessário ter-se uma visão global da instituição e participar de todas as etapas, inclusive na tomada de decisões (BROSS, 2002). Logo, o plano diretor configura-se como elemento passível de estudo e de pesquisa, pois não é apenas um item do processo de projeto mas, sim, o elo de ligação entre o planejamento estratégico e a arquitetura do empreendimento (SALGADO 2005).

METODOLOGIA DE PESQUISA

Para se alcançar os objetivos da pesquisa foram entrevistados três arquitetos brasileiros, representativos no âmbito da arquitetura e do planejamento hospitalar brasileiro, com o intuito de identificar conceitos e métodos de elaboração de planos diretores hospitalares. O instrumento utilizado para a coleta de dados durante as entrevistas foi um roteiro semi-estruturado que se divide em duas partes: a) o papel do arquiteto no processo de planejamento hospitalar; e b) método de elaboração de plano diretor para hospitais. Os resultados foram analisados qualitativamente, observando-se similaridades e diferenças entre as respostas e os conceitos encontrados na revisão bibliográfica.

Já a caracterização de parte da produção dos planos diretores brasileiros foi realizada a partir da análise do currículo de cada um dos arquitetos entrevistados com o intuito de contribuir para o objetivo principal da pesquisa, mas sem a pretensão de ser um estudo estatístico que traduza toda a realidade do país. Para tanto, foram elaboradas planilhas-resumos da seguinte forma: 1º.) seleção por década dos planos diretores realizados pelos três arquitetos; 2º.) listagem dessas instituições para sua caracterização: público ou privado, privado com ou sem fins lucrativos, geral ou especializado, hospital-escola ou não, estabelecimento existente ou novo; e 3º.) caracterização dos planos diretores através da média de número de leitos e da área final previstos nos mesmos.

RESULTADOS

A partir das entrevistas e da análise dos currículos, foram selecionadas as seguintes informações mais relevantes encontradas na pesquisa, organizadas de acordo com o tema:

a) O Papel do Arquiteto no Processo de Planejamento Hospitalar
Todos os arquitetos entrevistados disseram participar do processo de planejamento hospitalar enquanto consultores e/ou coordenadores do processo. Essa participação do arquiteto é tida como importante pois ajuda a esclarecer quanto ao uso do espaço no sentido de viabilizar o negócio, valorizando a lógica do espaço. Entretanto, ela não tem ocorrido o quanto deveria, pois talvez se tenha perdido o papel desse profissional em discutir primeiro o problema/ o negócio, para só então partir para o desenho.

Para que tal participação ocorra é necessário que o arquiteto busque o conhecimento generalista no foco “hospital”, ou seja, apesar da especialização em arquitetura hospitalar/saúde, deve-se construir um conhecimento diversificado e amplo sobre o tema. Além disso, é importante que o profissional abra mão de seus preconceitos e tenha percepção sensorial para que as informações cheguem até ele, de maneira que possa também compreender o comportamento no ambiente de trabalho, de clientes e demais agentes envolvidos.

Além disso, foi destacado que o arquiteto não deve agir apenas como desenhista de médico e outros profissionais do setor de saúde, pelo contrário, deve ter uma atuação ampliada, de compromisso com a instituição como um todo, e que vai além da atividade de desenho.

b) Método de Plano Diretor para Hospitais
Apesar de não ter sido identificado um método comum de elaboração de planos diretores hospitalares entre os entrevistados, foram encontrados alguns pontos de similaridade principalmente em relação aos princípios que guiam o processo, como a análise do setor e de mercado, e também quanto aos objetivos do plano que são: dar condições de futuro e perenidade à instituição e proporcionar a avaliação contínua.

O plano diretor deve ser lógico e dinâmico, alinhado às necessidades da instituição e com ferramentas de decisão e de atualização que possibilitem a sua manutenção, já que se não for flexível, é abandonado e não sobrevive às intempéries. Aquele plano episódico, estático e segmentado não consegue mais acompanhar a velocidade das mudanças de hoje, por isso precisa ser um documento ágil e acessível para realmente cumprir a sua função e poder ser utilizado no dia a dia do hospital.

c) Análise de Parte da Produção de Planos Diretores no Brasil
Apesar das limitações da pesquisa, é provável que o planos diretores hospitalares tenham surgido no Brasil a partir década de 80, após as décadas marcadas pelo surgimento dos métodos de projeto, ou seja, de procedimentos organizadores do processo criativo na busca por soluções de problemas cada vez mais complexos, a exemplo dos próprios hospitais.

Já na década de 90, o estudo mostra um aumento de quase 50% no número de planos realizados, porém a sua representatividade em relação a outros tipos de trabalho reduz de 18% para 12%, sobretudo em função da ampliação de trabalhos na área de consultoria e administração. No período de 2000 a 2006, essa representatividade parece manter a tendência de redução o que não significa, necessariamente, diminuição do número de planos realizados. Vale destacar também que a análise desse último período é preliminar, uma vez que a década ainda não está completa.

De qualquer maneira, observa-se através das entrevistas uma mudança no conceito de plano diretor nos últimos tempos, entendido como um processo mais dinâmico, preocupado com o mercado e a estratégia empresarial, e com a sua real utilização. Essa situação poderia ser considerada como uma forma de reação a exemplo das críticas feitas aos planos diretores urbanos, pelo seu determinismo físico-territorial e falta de comprometimento com a realidade (NYGAARD, 2005). Talvez os novos conceitos estejam sendo reestruturados e redirecionados para acompanhar as exigências do mundo contemporâneo, o que não tem desvalorizado e aparentemente nem diminuído a produção de planos diretores hospitalares no país.

Em relação à caracterização dos estabelecimentos de saúde no Brasil, a análise mostrou que a maioria das instituições para as quais os planos foram realizados é privada, sem fins lucrativos, com atendimento geral, não é hospitalescola e já existia quando o plano foi feito (Figura 01). A média é de 264 leitos por instituição planejada, com cerca de 28.000,00 m2, o que resulta em 106 m2 por leito.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados da pesquisa mostraram que o cenário hospitalar brasileiro justifica a importância da realização de planos diretores para dar condições de futuro aos estabelecimentos de saúde, cuja participação do arquiteto é fundamental para que haja o alinhamento entre a arquitetura e a estratégia do empreendimento, embora não aconteça o quanto deveria.

Vale destacar que a conceituação de ‘plano diretor físico hospitalar’ é um tanto diversificada e até divergente, o que dificulta de certa forma o seu entendimento e, conseqüentemente, a identificação de métodos de elaboração. Mesmo assim, o trabalho contribui ao esclarecer um pouco mais os conceitos e os princípios que guiam a realização dos planos por parte dos arquitetos no país.

Para finalizar, é importante ressaltar que embora os resultados da pesquisa não possam ser considerados como conclusivos, dadas a limitações de abrangência e representatividade, espera-se que o conjunto de informações reunidas contribua para um melhor entendimento e valorização do plano diretor físico, tanto para hospitais quanto para outras tipologias de edifício, destacando o papel do arquiteto nesse processo enquanto propositor de soluções frente a problemas complexos.

AGRADECIMENTOS


Ao Programa da Pós-Graduação da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em especial ao Prof. Dr. Leandro Medrano, orientador da dissertação de Mestrado.

REFERÊNCIAS

BROSS, J. C. A concepção do edifício de saúde alinhada com a estratégia empresarial. In: Congresso Brasileiro da ABDEH, 2., 2006, Rio de Janeiro. Resumo das Palestras. Rio de Janeiro: ABDEH, 2006. p. 22-23. ______. A nova face da arquitetura hospitalar. [jan.-mar.?, 2002].

Entrevistador: L. V. Leal. Revista Finestra. São Paulo, ano 7, n.28, p.60-63, jan./mar. 2002.

GOMEZ, M.. Administração de serviços de saúde. Apostila da disciplina de Gerenciamento Predial de Edifícios de Saúde. Curso de Especialização em Administração de Serviços de Saúde, Faculdade Estadual de Ciências Econômicas de Apucarana, Universidade Estadual do Paraná, Londrina, 2002.

KARMAN, J.; FIORENTINI, D. (Colab.) Atualização hospitalar planejada. In: CARVALHO, A. P. A de (Org.). Temas de arquitetura de estabelecimentos assistenciais de saúde. Salvador: Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Arquitetura, 2002. p.87-103.

MAUDONNET, R. B. Administração hospitalar. Rio de Janeiro: Cultura Médica, 1988.

NAGASAWA, Y. Hospital architectural/engineering master planning. Hospital Engineering & Facilities Management 2007: the official publication of the International Federation of Hospital Engineering. London: Touch Briefings, p. 11-13, 2007.

NYGAARD, P. D. Planos diretores de cidades cidades: discutindo sua base doutrinária. Porto Alegre: UFRGS, 2005.

SALGADO, M. S. Gestão do processo do projeto do edifício: uma discussão. In: SANTOS, M. C. de O. (Coord.). Cadernos do PROARQ/UFRJ. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, v. 9, n. 9, dez. 2005. p. 29-42.

SILVA, C. N. Gestão do processo do projeto: análise da metodologia adotada no desenvolvimento de projetos hospitalares. Rio de Janeiro, 2006. 154 f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006.

SILVA, K. P. Hospital, espaço arquitetônico e território. São Paulo, 1999. 244 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1999.

TANCREDI, F. B.; BARRIOS, S. R. L.; FERREIRA, J. H. G. Planejamento em saúde. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, 1998. (Série Saúde & Cidadania, v.2).

WALKER, D. H. T.; SHEN, Y. J. Project understanding, planning, flexibility of management action and construction time performance: two Australian case studies. Construction Management and Economics. Abingdon, UK: Taylor & Francis, v. 20, p. 31-44, 2002.
Créditos: Flex Editora 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os Comentários são moderados.
Não serão publicados comentários fora do contexto da postagem ou que utilizam de linguagem inadequada.