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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Arquitetura na Alemanha: Da expansão industrial ao ecletismo


 

Na arquitetura, o século 19 foi marcado pela expansão urbana, pelo início da racionalização da construção e pelo ecletismo arquitetônico. Dos arquitetos alemães, a obra de Gottfried Semper merece especial atenção.

 

Após a vitória na guerra teuto-francesa de 1870–71, o recém-formado Império Alemão vivenciou intenso crescimento econômico. A Alemanha equiparava-se, já no fim do século 19, às nações mais industrializadas da Europa. Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, a balança comercial alemã superava a da Bélgica, Inglaterra, França e até mesmo a dos Estados Unidos.

Pintura 'Fábrica no centro de Berlim', Eduard Biermann, 1847 

As reparações de guerra pagas pelos franceses permitiram uma onda inicial de fundação de empresas que deu nome ao período: Gründerzeit (era dos fundadores). Industrialização, crescimento populacional e a forte migração do campo para a cidade foram os principais fatores do crescimento urbano inimaginável do século 19. Com a substituição da manufatura pela indústria, surgiram blocos exclusivamente dedicados à moradia e outros ao trabalho.

A invenção da locomotiva e da linha férrea e o posterior desenvolvimento dos transportes públicos através da eletrificação de bondes e metrôs permitiram a expansão da cidade compacta tradicional. Um planejamento urbano, como hoje se conhece, não existia. Até 1918, a especulação imobiliária dominou o mercado residencial.

Ordem urbana bem-definida

Fachadas do 'Gründerzeit': unitárias, mas não semelhantes 


Seguindo a orientação liberal-capitalista, a ampliação urbana da época se fez de forma racionalista, dividindo a cidade em parcelas retangulares com frente estreita e grande profundidade, permitindo somente um mínimo de luz e ventilação.

O aproveitamento máximo do terreno e alta densidade, ou seja, a construção em vários pavimentos, foram conseqüências da lógica especulativa. Tais quarteirões tornaram-se unidade de ampliação urbana.

Traçadas ruas e praças, a elas se deveriam adaptar os novos prédios. Construídos em parcelas iguais, suas fachadas eram unitárias, mas não semelhantes. A clara separação entre espaço público e privado transmitia a idéia de uma ordem urbana bem definida. Além do pé-direito alto das moradias, a proximidade do centro explica o fascínio que, ainda hoje, tais quarteirões exercem sobre inquilinos e proprietários.

Imagem distorcida

No entanto, a imagem que chegou da cidade do século 19 é distorcida, pois, na verdade, era um grande cortiço. A altíssima densidade urbana dos blocos residenciais provocava endemias como a epidemia de cólera de 1892, em Hamburgo, que causou a morte de mais de 10 mil pessoas. Diferentemente da Inglaterra, onde a habitação individual também foi privilegiada, a cidade industrial alemã assumiu a forma da Mietskasernenstadt (cidade de casernas de aluguel).

Arquitetura eclética: fascínio de inquilinos e proprietários 

Em Berlim, tanto a burguesia do bairro de Charlottenburg como o proletariado de Kreuzberg vivia em prédios de vários pavimentos. Enquanto uma família burguesa habitava apartamentos de sete a oito cômodos, cujo rebuscamento das fachadas era sinal de status, uma família proletária de cinco pessoas dividia, freqüentemente, uma só peça, onde o banheiro se localizava no pátio ou corredor. Contra tal situação se posicionaria a arquitetura moderna do início do século 20.

Apesar da insalubridade do século 19, a infra-estrutura urbana (canalização, esgoto) foi aperfeiçoada e a expectativa de vida aumentou. Além de igrejas e prefeituras, o que se observa no período é o grande número de novas construções que também receberam tratamento arquitetônico. Museus, teatros, óperas, hospitais, estações ferroviárias, entre outros, tornaram-se também representantes do poder estatal através de sua arquitetura.

Neoclassismo e neogótico

Na arquitetura, o século 19 foi marcado pelo início da racionalização da construção e pelo ecletismo de estilos arquitetônicos que marcou tanto as cornijas e frontões das fachadas de prédios residenciais como o caráter dado aos diferentes edifícios privados e estatais.

Ecletismo arquitetônico: Estação ferroviária Lehrter-Bahnhof, Berlim, 1869-71 

A falta de um estilo que correspondesse à nova era industrial, a separação do pensamento arquitetônico do pensamento filosófico promovido pelo racionalismo e a necessidade de representação da burguesia e dos novos Estados nacionais provocaram o surgimento de tendências como o neoclassicismo e o neogótico para caracterizar prédios públicos e religiosos, o que já vinha se anunciando desde o começo do século através da obra do arquiteto-mor da Prússia, Karl Friedrich Schinkel.

Poucas vozes surgiram contra tal tendência tão combatida anos mais tarde por arquitetos precursores do Modernismo, como o austríaco Adolf Loos em seu famoso artigo Ornamento e Crime de 1908. Dos arquitetos alemães da segunda metade do século 19, o teórico e arquiteto da Ópera de Dresden, o hamburguês Gottfried Semper (1803–1879), merece atenção especial.

O arquiteto de Nietzsche

Em seu estudo Policromia, de 1834, Semper põe a baixo a idéia da pureza da Antigüidade clássica grega, provando que seus prédios, idealizados em mármore branco por pintores e arquitetos do Iluminismo, eram na verdade pintados. Tal estudo veio a influenciar a obra do filósofo Friedrich Nietzsche na constatação do caráter dionisíaco e apolíneo da cultura grega. Para Nietzsche, Semper foi o "maior arquiteto de sua época". Sua obra mais famosa é a Ópera de Dresden, conhecida como Semperoper, construída entre 1869 e 1878 na capital da Saxônia.

Ópera de Dresden de Gottfried Semper: por dentro, Apolo; por fora, Dionísio 

A arquitetura barroca de Roma lhe deu o exemplo para o portal de entrada que garante o contínuo entre o corpo da edificação e o espaço urbano. Como afirma o teórico da arquitetura Fritz Neumeyer, Semper praticou em Dresden a diferenciação dos lados apolíneo e dionisíaco da arquitetura: enquanto o espaço da caixa de palco era dominado por Apolo, identificado através da lira pintada no teto, é a estátua de Dionísio que coroa o portal de entrada e o caráter festivo do invólucro da edificação.

Além de combater a racionalização da construção, criticando duramente o sistema de eixos construtivos, Semper promoveu o retorno ao Renascimento como forma de reunificação das artes e foi precursor de um movimento na arquitetura que privilegiou a percepção do corpo e da superfície à lógica da técnica construtiva. Se foi Schinkel quem influenciou arquitetos racionalistas como Mies van der Rohe, a influência pouco estudada da obra de Semper chega aos nossos dias através de arquitetos "nietzchenianos" como Oscar Niemeyer e Zaha Hadid.
 
Fonte: Carlos Albuquerque

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